
Em resumo: a cultura da alta performance empurra muita gente, médicos, advogados, executivos, a buscar no comprimido um atalho para render mais. Mas, para quem usa sem um diagnóstico, boa parte desse ganho é expectativa, não farmacologia. Vale a reflexão sobre o que esse padrão cobra da nossa saúde.
Desde meados do século passado, o mundo passa por uma transformação acelerada, sobretudo depois da internet, com pessoas conectadas em tempo real de qualquer lugar. Essa mudança trouxe benefícios, mas também um custo: a pressão permanente por estar antenado e produzir sem parar, sob pena de ficar para trás, e o medo de que uma simples falha humana ofusque todos os acertos.
Precisamos mesmo ser assim?
Esse padrão de comportamento é saudável, física e mentalmente? E, se quisermos pensar diferente, importa de fato o que os outros pensarão? Não há nada de errado em ser produtivo e eficiente, o aprimoramento é próprio do ser humano. O problema começa quando esse dever de render afeta a nossa naturalidade, a nossa essência. Quando a estafa aperta, quando nem um mês de férias desliga a ansiedade, algumas pessoas recorrem a substâncias que supostamente melhoram o desempenho.
O comprimido amigo é mesmo amigo?
Diante de um diagnóstico, seguir a orientação médica é o caminho. Mas e quando profissionais saudáveis adotam um comprimido como rotina para render mais no dia a dia, estão fazendo o certo? Criou-se a ilusão de que a pílula nos torna mais ágeis e inteligentes. E aqui falo de quem usa para turbinar a cognição, não de quem tem um diagnóstico estabelecido. Um estudo conduzido na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), citado nas fontes ao final, sugeriu que, nesse uso sem diagnóstico, o efeito percebido se aproxima do placebo: a diferença é a pessoa acreditar que vai além só por estar tomando aquele algo a mais.
Confesso que ainda não tenho a resposta para essas perguntas, mas acho que vale pensar sobre elas, para quem também acredita ser saudável refletir. E você, o que acha?
Fontes: Unifesp, Departamento de Psiquiatria e Associação Brasileira de Psiquiatria.
Leonardo Savian Batistella é advogado (OAB/RS 85.046) com atuação nacional em Direito Médico, Bioética e Compliance na Saúde. Integra comitês de bioética hospitalares e escreve sobre os dilemas éticos do cuidado e da vida contemporânea.
